“Ponham o pé fora dos confins do escritó- rio e vão ver o que se passa”.
mai26
“Ponham o pé fora dos confins do escritó-
rio e vão ver o que se passa”.
Não é queixa anónima, opinião no jornal ou
desabafo de rua; o recado é mesmo oficial
e pesado: Zhang Yingjie, vice-diretor do Ga-
binete de Ligação, num encontro sobre as
“Duas Sessões”, ditou os sete mandamentos
dos governantes. Não saiu nas notas oficiais;
teve destaque na TVB, de Hong Kong; e
repercussão em Macau. Fechar os olhos a
isto anuncia consequências.
No San Wa Ou, jornal de ideologia conti-
nental, deixa claro em editorial a azia que
o recado denuncia. Política palaciana, te-
ses, discursos e planos; pouca colagem à
realidade, ao presente que dói e preocupa.
Macau enfrenta “inúmeras contradições”,
diz Zhang. Não está a falar de segurança; do
inimigo externo nem da culpa do capitalis-
mo. Está a falar do Governo – da falta dele.
No Macao Daily News, um editorial arrasa
o fim das conferências sobre criminalidade.
Mais do que o tema em si, o ataque é feito
à falta de transparência; verdadeiro mani-
festo contra a desconexão com o interesse
público. Aparentemente assinado por pseu-
dónimo, só pode ser publicado com aval do
diretor. Lok Po sabe bem o que se passa; e
o que pensa o Poder Central.
Os problemas são muitos; não o PIB, de
vento em poupa na vela do Jogo; mas todos
os outros: distribuição da riqueza, crise de
expectativa, falta de investimento, diversifi-
cação a ver navios... O turista come tapau,
mas já nem isso é negócio, arrasado pela
concorrência que atravessa fronteiras.
Tai Kin Yp, oficialmente deprimido, sai pelo
próprio pé; deixa uma bomba relógio. Diz-se
nos bastidores que a favorita é O Lam, que
sairia da pasta que distribui para aquela que
tem de fazer dinheiro. É um peso pesado,
bem relacionada no Poder Central; mas não
tem varinha mágica, nem quer ser o próximo
bode expiatório. Esse pode ser Vong Sin Man,
presidente da Autoridade Monetária.
O plano do novo ciclo tem racional; diver-
sificação, investir, integração regional, plata-
forma... Tudo certo. Mas há duas verdades
incontornáveis. Primeiro, leva tempo; segun-
do, é preciso ser rápido e eficaz. São muitos,
mas isso não pode bloquear a ação; têm
de ser dados, um de cada vez e em força.
Entretanto, o presente é madrasto. Tira
o chão que havia e não mostra outra via;
que tarda e desespera. Macau precisa de
um plano de contingência, política virada
ao presente enquanto o futuro não chega.
E, a julgar pela clareza oficial do recado; o
Governo tem mesmo de perceber o que
se passa. Não vá um dia já não se passar
nada com ele.
*Diretor Geral do PLATAFORMA
https://cdn.plataformamedia.com/2026/05/PM-615-NEW-WEB-4.pdf
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